Olá, querido doutor e doutora! A anemia da inflamação é uma condição frequentemente observada em pacientes com doenças crônicas e processos inflamatórios persistentes, refletindo alterações complexas do metabolismo do ferro e da eritropoiese. A abordagem adequada contribui para melhor avaliação prognóstica e manejo global do paciente.
Enquanto a inflamação permanece ativa, a anemia tende a manter se estável ou apresentar flutuações discretas, acompanhando a atividade da doença de base.
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O que é a Anemia da inflamação
A anemia da inflamação, também denominada anemia associada a doenças crônicas, é um distúrbio hematológico adquirido caracterizado pela redução da concentração de hemoglobina em contexto de processos inflamatórios persistentes, infecciosos, autoimunes ou neoplásicos. Trata se de uma anemia geralmente normocítica e normocrômica, podendo evoluir para padrão microcítico em fases mais prolongadas.
Epidemiologia e fatores de risco
A anemia da inflamação é uma das anemias adquiridas mais frequentes na prática clínica, especialmente em pacientes hospitalizados e em indivíduos com doenças crônicas. Sua prevalência aumenta com a idade e com a duração da condição inflamatória subjacente, sendo comum em ambientes ambulatoriais especializados e unidades de internação.
É observada com elevada frequência em pacientes com doenças inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e doença inflamatória intestinal, além de infecções crônicas, neoplasias, doença renal crônica e estados inflamatórios persistentes associados a hospitalizações prolongadas.
Entre os principais fatores de risco destacam se a presença de inflamação sistêmica ativa, níveis elevados de citocinas pró inflamatórias, duração prolongada da doença de base, insuficiência renal, idade avançada, desnutrição associada à doença crônica e uso recorrente de terapias imunossupressoras.
Fisiopatologia
Alterações inflamatórias sistêmicas
A anemia da inflamação decorre da ativação persistente do sistema imune, com liberação de citocinas pró inflamatórias como interleucina 6, interleucina 1 e fator de necrose tumoral alfa. Essas citocinas atuam diretamente sobre a medula óssea, modulando negativamente a proliferação e a diferenciação dos precursores eritroides.
Regulação da hepcidina e metabolismo do ferro
A inflamação estimula o aumento da hepcidina hepática, principal reguladora da homeostase do ferro. A hepcidina promove a degradação da ferroportina, reduzindo a absorção intestinal de ferro e favorecendo sua retenção nos macrófagos e hepatócitos. Como consequência, ocorre diminuição do ferro disponível para a eritropoiese, mesmo na presença de estoques corporais adequados.
Supressão da eritropoiese
Além da restrição funcional do ferro, há redução da produção de eritropoetina e diminuição da resposta medular a esse hormônio. As citocinas inflamatórias exercem efeito inibitório direto sobre os precursores eritroides, contribuindo para menor produção de eritrócitos.
Alterações na sobrevida dos eritrócitos
O ambiente inflamatório também está associado à redução da sobrevida dos glóbulos vermelhos, relacionada à maior fagocitose pelo sistema reticuloendotelial. Esse mecanismo soma se à menor produção eritroide, resultando em anemia de intensidade variável, geralmente normocítica e proporcional à atividade inflamatória da doença de base.
Avaliação clínica
O quadro clínico da anemia da inflamação é frequentemente insidioso e pode ser pouco específico, especialmente nos estágios iniciais. Os sintomas estão relacionados tanto à redução da concentração de hemoglobina quanto à doença inflamatória subjacente, o que pode dificultar o reconhecimento isolado da anemia.
Os achados mais comuns incluem fadiga, redução da tolerância ao esforço, astenia, dispneia aos esforços e diminuição da capacidade funcional. Em muitos casos, esses sintomas são atribuídos à condição de base, retardando a investigação hematológica.
Gravidade e apresentação clínica
A anemia costuma ser de intensidade leve a moderada, com valores de hemoglobina relativamente estáveis ao longo do tempo, desde que a inflamação permaneça ativa. Sintomas mais intensos, como palpitações, tontura ou dispneia em repouso, são menos frequentes e geralmente associados a comorbidades cardiovasculares ou agravamento do processo inflamatório.
Achados associados à doença de base
Além dos sintomas anêmicos, o paciente pode apresentar sinais clínicos relacionados à doença inflamatória crônica, como febre baixa persistente, perda ponderal, dor articular, manifestações infecciosas recorrentes ou sinais de neoplasia. O reconhecimento do contexto clínico é fundamental para suspeitar de anemia da inflamação e direcionar a investigação diagnóstica adequada.
Diagnóstico
Abordagem diagnóstica inicial
O diagnóstico da anemia da inflamação baseia se na integração entre dados clínicos, contexto de doença inflamatória ativa e avaliação laboratorial. A suspeita deve ser considerada em pacientes com anemia persistente associada a infecção crônica, doença autoimune, neoplasia ou condição inflamatória prolongada.
A anemia é geralmente normocítica e normocrômica, embora possa apresentar microcitose discreta em fases mais tardias. A contagem de reticulócitos costuma estar normal ou reduzida, refletindo menor resposta eritropoiética.
Perfil laboratorial do ferro
Os exames laboratoriais mostram ferro sérico reduzido e saturação de transferrina baixa, contrastando com ferritina normal ou aumentada, que atua como reagente de fase inflamatória. A capacidade total de ligação do ferro encontra se normal ou diminuída, auxiliando na diferenciação em relação à anemia ferropriva.
Marcadores inflamatórios, como proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação, estão frequentemente elevados e reforçam o contexto inflamatório sistêmico.
Diagnóstico diferencial
O principal desafio diagnóstico é a distinção entre anemia da inflamação e anemia ferropriva, bem como a identificação de formas mistas. Em casos selecionados, a dosagem do receptor solúvel da transferrina pode auxiliar, pois tende a permanecer normal na anemia da inflamação.
Tratamento
Controle da doença inflamatória de base
O manejo da anemia da inflamação depende prioritariamente da redução da atividade inflamatória associada à condição de base. O tratamento eficaz da doença infecciosa, autoimune, neoplásica ou inflamatória crônica tende a promover melhora progressiva dos parâmetros hematológicos.
Uso de ferro
A suplementação de ferro oral apresenta resposta limitada devido à diminuição da absorção intestinal mediada pela hepcidina. O ferro intravenoso pode ser considerado em cenários específicos, como coexistência de deficiência de ferro, doença renal crônica ou falha documentada da reposição oral.
Agentes estimuladores da eritropoiese
Os agentes estimuladores da eritropoiese são opções terapêuticas em pacientes com anemia moderada ou sintomática, especialmente na insuficiência renal crônica e em alguns contextos oncológicos. O uso requer avaliação individualizada e monitorização rigorosa para evitar elevação excessiva da hemoglobina.
Transfusão de concentrado de hemácias
A transfusão é reservada para situações de anemia grave, instabilidade clínica ou sintomas importantes, não sendo indicada como estratégia de manejo crônico. A decisão deve considerar comorbidades, risco cardiovascular e quadro clínico global.
Complicações e prognóstico
Complicações clínicas
A anemia da inflamação associa se a piora do estado geral e à redução da capacidade funcional, com impacto significativo na tolerância ao esforço e no desempenho das atividades diárias. A fadiga persistente é um achado frequente e tende a se intensificar conforme a duração e a atividade do processo inflamatório.
Em pacientes com comorbidades, especialmente doença renal crônica, doenças cardiovasculares e neoplasias, a anemia pode contribuir para maior instabilidade clínica, aumento da necessidade de hospitalizações e prolongamento do tempo de internação.
Complicações relacionadas à abordagem terapêutica
A resposta limitada à suplementação de ferro, sobretudo por via oral, pode levar à persistência da anemia mesmo após tentativas de reposição. O uso de agentes estimuladores da eritropoiese, quando indicado, exige acompanhamento rigoroso, devido ao risco de elevação excessiva da hemoglobina e eventos adversos associados.
Prognóstico
O prognóstico da anemia da inflamação está intimamente relacionado à evolução da condição inflamatória subjacente. Enquanto a inflamação permanece ativa, a anemia tende a manter se estável ou com flutuações discretas.
A melhora do processo inflamatório costuma resultar em elevação gradual da hemoglobina. A persistência da anemia reflete maior gravidade da doença de base e associa se a piores desfechos clínicos, especialmente em pacientes idosos e naqueles com doenças crônicas avançadas.
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Referências bibliográficas
- DYNAMED. Anemia of inflammation. Ipswich: EBSCO Information Services, 2024.



