Resumo de Atresia Tricúspide: causas, diagnóstico e mais!
Pexels.

Resumo de Atresia Tricúspide: causas, diagnóstico e mais!

Olá, querido doutor e doutora! A atresia tricúspide é uma cardiopatia congênita cianótica rara que impõe desafios desde o período neonatal até a vida adulta. Este resumo aborda, de forma objetiva e prática, os principais aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos relacionados à doença. 

O sangue sistêmico que chega ao átrio direito é forçado a desviar para o átrio esquerdo por meio de uma comunicação interatrial, levando à mistura com sangue oxigenado e sobrecarga do ventrículo esquerdo.

Definição e fisiopatologia  

A atresia tricúspide é uma cardiopatia congênita caracterizada pela ausência completa da válvula tricúspide, o que impede o fluxo sanguíneo direto do átrio direito para o ventrículo direito. Com isso, o ventrículo direito se desenvolve de forma hipoplásica.

O sangue venoso que chega ao átrio direito é desviado para o átrio esquerdo por meio de uma comunicação interatrial, onde ocorre mistura com o sangue oxigenado proveniente dos pulmões. Esse volume misto é ejetado pelo ventrículo esquerdo, que assume função única.

A quantidade de sangue que alcança os pulmões depende de:

  • Tamanho do defeito do septo ventricular (DSV);
  • Presença de obstrução à via pulmonar;
  • Anatomia dos grandes vasos.

Essa configuração determina se haverá cianose precoce (em casos com pouco fluxo pulmonar) ou sinais de insuficiência cardíaca (em situações de hiperfluxo).

Descubra como as bancas cobram na prática!

Prepare-se com o Estratégia MED!

Classificação anatômica

Tipo I – Grandes vasos em posição normal

Essa é a forma mais comum, representando cerca de 70% a 80% dos casos. O tronco pulmonar emerge do ventrículo direito e a aorta do ventrículo esquerdo. As diferenças entre os subgrupos se referem ao grau de obstrução pulmonar e ao tamanho do defeito do septo ventricular (DSV).

  • No subgrupo Ia, há atresia da valva pulmonar e septo interventricular íntegro. Nesse cenário, o fluxo pulmonar é totalmente dependente de um canal arterial patente.
  • O subgrupo Ib apresenta DSV pequeno associado a estenose pulmonar, o que reduz o fluxo pulmonar e pode gerar cianose intensa.
  • Já no subgrupo Ic, o DSV é amplo e não há obstrução à via de saída pulmonar, o que leva a hiperfluxo pulmonar e, por consequência, risco de insuficiência cardíaca.

Tipo II – Transposição das grandes artérias (D-TGA)

Nesta forma, presente em aproximadamente 12% a 25% dos casos, a aorta origina-se do ventrículo direito e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo. A transposição altera significativamente a circulação e o manejo clínico.

  • O subgrupo IIa combina atresia pulmonar e DSV, sendo o fluxo pulmonar dependente do canal arterial.
  • O subgrupo IIb cursa com estenose pulmonar e DSV, configurando um cenário de fluxo pulmonar reduzido, mas não ausente.
  • No subgrupo IIc, não há obstrução pulmonar e o DSV é largo, o que promove aumento do fluxo pulmonar e sintomas congestivos nas primeiras semanas de vida.

Tipo III – Malposições complexas dos grandes vasos

Esse grupo, mais raro (3% a 6%), abrange malformações anatômicas mais complexas, como tronco arterioso comum, dupla via de saída de ventrículo direito ou esquerdo e transposição corrigida congenitamente (L-TGA). Essas variações geralmente estão associadas a outras anomalias cardíacas e exigem abordagem individualizada.

Subgrupos baseados na via pulmonar

Além da classificação pela anatomia dos grandes vasos, também se considera o grau de obstrução à via pulmonar, classificando os casos em:

  • Subgrupo “a” – com atresia pulmonar
  • Subgrupo “b” – com estenose ou hipoplasia pulmonar
  • Subgrupo “c” – com fluxo pulmonar preservado

Essa subestratificação é útil para orientar intervenções precoces, como uso de prostaglandinas, necessidade de shunt sistêmico-pulmonar ou bandagem da artéria pulmonar.

Epidemiologia e etiologia

Prevalência e distribuição

A atresia tricúspide representa cerca de 1,2 a 1,4 por 10.000 nascidos vivos, sendo a terceira cardiopatia congênita cianótica mais frequente, atrás apenas da tetralogia de Fallot e da transposição das grandes artérias. Ela afeta ambos os sexos de forma semelhante e não apresenta distribuição racial preferencial. Cerca de 1% a 3% de todos os defeitos cardíacos congênitos são classificados como atresia tricúspide, o que reforça sua importância na prática clínica pediátrica e neonatal.

Fatores associados no período gestacional

Embora a origem da doença esteja relacionada a um distúrbio na formação dos coxins endocárdicos durante o desenvolvimento cardíaco fetal, a causa exata permanece desconhecida na maioria dos casos. No entanto, alguns fatores têm sido observados com maior frequência entre os casos descritos:

  • Infecções febris maternas no primeiro trimestre;
  • Idade materna extrema (menores de 20 anos ou acima de 35 anos);
  • Exposição a drogas ilícitas, como o uso paterno de cocaína;
  • Traumas durante o período periconcepcional.

Esses fatores parecem estar relacionados à interferência no processo de delaminação das cúspides valvares, resultando em agenesia completa ou formação membranosa anômala do anel tricúspide.

Quadro clínico 

Variação conforme o padrão hemodinâmico

A apresentação clínica da atresia tricúspide depende diretamente da quantidade de sangue que atinge os pulmões, ou seja, do equilíbrio entre fluxo pulmonar, presença de DSV e anatomia das grandes artérias. Com base nisso, os recém-nascidos podem apresentar três padrões principais: cianose precoce, sinais de insuficiência cardíaca congestiva, ou uma forma intermediária e transitória.

Cianose nos primeiros dias de vida

Nos casos com fluxo pulmonar restrito ou ausente, como ocorre nas variantes com atresia ou estenose pulmonar severa, o recém-nascido apresenta cianose central evidente já nas primeiras horas ou dias de vida, que tende a se agravar com o fechamento fisiológico do canal arterial. A hipoxemia pode vir acompanhada de taquipneia, acidose metabólica e irritabilidade, configurando uma urgência clínica. Esses pacientes geralmente pertencem aos subtipos Ia ou IIa da classificação anatômica.

Hiperfluxo pulmonar e insuficiência cardíaca

Por outro lado, quando o fluxo pulmonar é excessivo (como nos tipos Ic ou IIc, com DSV amplo e sem obstrução pulmonar), os sintomas de cianose são discretos ou ausentes inicialmente. Contudo, com a queda natural da resistência vascular pulmonar nas primeiras semanas de vida, o paciente evolui com sinais de insuficiência cardíaca: taquipneia persistente, dificuldade para mamar, sudorese profusa durante as mamadas, ganho ponderal insatisfatório e episódios de infecção respiratória de repetição.

Achados ao exame físico

O exame físico varia conforme o padrão circulatório. Em casos com hipofluxo, o precórdio costuma ser hipocinético, com segunda bulha única e murmúrio sistólico discreto ou ausente. Pode-se ouvir sopro contínuo de canal arterial se este estiver ainda patente. Em formas com hiperfluxo, observam-se sinais de congestão pulmonar, hepatomegalia discreta, taquicardia e sopros intensos, geralmente holossistólicos por DSV e mesodiastólicos por aumento de fluxo mitral.

Manifestações em fases posteriores

Crianças que não são corrigidas precocemente podem apresentar clubbing digital, policitemia secundária e episódios de hipóxia aguda em situações de estresse, especialmente se o fluxo pulmonar for dependente de colaterais ou ducto restrito. Já em adolescentes e adultos não tratados ou mal corrigidos, podem surgir arritmias, síncope, deterioração da capacidade funcional, endocardite infecciosa ou até eventos tromboembólicos.

Diagnóstico 

Identificação clínica e suspeita inicial

O diagnóstico de atresia tricúspide pode ocorrer tanto no período pré-natal quanto após o nascimento. Em neonatos, a suspeita clínica surge diante de cianose precoce, taquipneia inexplicada ou sopros cardíacos associados a má perfusão ou dificuldade alimentar. A ausência de murmúrio em casos com obstrução pulmonar significativa também deve levantar suspeita, especialmente se houver saturações persistentemente baixas. O rastreio com oximetria de pulso antes da alta hospitalar tem sido um aliado importante na detecção precoce.

Achados no eletrocardiograma (ECG)

O ECG revela hipertrofia ventricular esquerda, dada a sobrecarga imposta ao ventrículo único funcional, e desvio do eixo para a esquerda (caracteristicamente entre -30° e -90°), o que é incomum em neonatos. É frequente observar também aumento da atividade atrial direita, mesmo com ventrículo direito hipoplásico. Esses achados, embora inespecíficos, reforçam a suspeita quando compatíveis com o quadro clínico.

Radiografia de tórax

Os achados radiológicos variam conforme o padrão de fluxo pulmonar:

  • Em casos com hipofluxo, observa-se diminuição das marcas vasculares pulmonares e silhueta cardíaca normal ou discretamente aumentada.
  • Já nos casos com hiperfluxo pulmonar, há cardiomegalia e vasculatura pulmonar aumentada, podendo sugerir congestão. O aumento da área da sombra do átrio direito também é um achado frequente, refletindo dilatação atrial secundária à obstrução ao escoamento.

Ecocardiograma: exame de escolha

O ecocardiograma transtorácico bidimensional com Doppler é o principal exame para confirmar o diagnóstico. Ele permite:

  • Visualização direta da ausência de comunicação entre átrio direito e ventrículo direito;
  • Avaliação da hipoplasia ventricular direita;
  • Identificação da comunicação interatrial e interventricular;
  • Análise do fluxo através das válvulas e da anatomia dos grandes vasos.

É também o exame indicado para guiar decisões terapêuticas imediatas, como a necessidade de prostaglandinas ou intervenções atriais (ex: septectomia).

Cateterismo e exames complementares

Embora o cateterismo cardíaco não seja mais rotineiramente utilizado para diagnóstico, ele pode ser necessário em casos com anatomia duvidosa, comunicação interatrial restrita ou na preparação para cirurgias paliativas como o Glenn e o Fontan. Já a ressonância magnética cardíaca e a angiotomografia são úteis em crianças maiores e adultos, especialmente na avaliação de colaterais, via pulmonar e função ventricular no seguimento.

Tratamento 

Objetivo geral da abordagem terapêutica

O tratamento da atresia tricúspide é sempre paliativo e escalonado, já que a anatomia não permite correção biventricular. A meta é criar uma circulação funcional em série, redirecionando o retorno venoso sistêmico para os pulmões sem passar por um ventrículo subpulmonar. Esse objetivo é alcançado por meio de intervenções cirúrgicas sequenciais, adaptadas à anatomia individual e ao padrão hemodinâmico apresentado no período neonatal.

Conduta inicial no período neonatal

Nos primeiros dias de vida, o foco é estabilizar o paciente. Em recém-nascidos com fluxo pulmonar dependente do canal arterial, é fundamental iniciar infusão de prostaglandina E1 (PGE1) para manter a perviedade do ductus arteriosus. A dose inicial habitual é de 0,05 a 0,1 mcg/kg/min, com redução progressiva conforme a resposta clínica.

  • Em casos de comunicação interatrial restrita, está indicada septectomia atrial cirúrgica ou septostomia com balão (Rashkind).
  • Manter normotermia, equilíbrio ácido-básico, glicemia e calcemia é crucial para a estabilidade hemodinâmica.
  • Oxigenoterapia deve ser usada com cautela, pois aumentos excessivos da saturação podem reduzir o fluxo sistêmico em contextos de hiperfluxo pulmonar.

Primeira etapa cirúrgica: controle do fluxo pulmonar

A escolha do procedimento inicial depende do volume de sangue que chega aos pulmões:

  • Hipofluxo pulmonar: nesses casos, realiza-se um shunt sistêmico-pulmonar, geralmente o Blalock-Taussig modificado, conectando a artéria subclávia à artéria pulmonar por meio de um tubo de PTFE.
  • Hiperfluxo pulmonar: nos pacientes com grande DSV e sem estenose pulmonar, indica-se a bandagem da artéria pulmonar (pulmonary artery banding) para limitar o fluxo e prevenir congestão pulmonar.
  • Quando há transposição com obstrução subaórtica, pode-se optar pela cirurgia de Damus-Kaye-Stansel associada a shunt, conectando a artéria pulmonar proximal à aorta ascendente para garantir saída sistêmica.

Segunda etapa: anastomose cavopulmonar (Glenn ou Hemi-Fontan)

Realizada geralmente aos 4 a 6 meses de vida, a cirurgia de Glenn conecta a veia cava superior à artéria pulmonar direita, permitindo que o sangue venoso da metade superior do corpo alcance diretamente os pulmões, sem passar pelo coração. Essa etapa reduz a sobrecarga do ventrículo único, melhora a oxigenação e prepara o paciente para a cirurgia definitiva.

Terceira etapa: cirurgia de Fontan

Aos 2 a 4 anos de idade, realiza-se a cirurgia de Fontan, que direciona o retorno venoso inferior diretamente para os pulmões. As variantes mais utilizadas hoje são:

  • Fontan com túnel extracardíaco
  • Fontan com túnel intra-atrial (lateral tunnel)

Ambas podem incluir uma fenestração, que permite um pequeno desvio direita-esquerda controlado, funcionando como válvula de escape em situações de aumento de pressão venosa.

Venha fazer parte da maior plataforma de Medicina do Brasil! O Estratégia MED possui os materiais mais atualizados e cursos ministrados por especialistas na área. Não perca a oportunidade de elevar seus estudos, inscreva-se agora e comece a construir um caminho de excelência na medicina! 

Curso Extensivo de Residência Médica

Curso Extensivo Residência Médica - 12 meses

Estude com nosso curso mais completo e tenha acesso a um material multimídia, elaborado por professores especialistas, de acordo com o conteúdo cobrado nas provas. Ideal para quem tem mais tempo para estudar e quer se dedicar ao máximo para obter os melhores resultados na sua preparação.
12x R$ 999,75
No Cartão de Crédito ou 10% de desconto no Boleto ou Pix à vista: R$ 10.797,30
Saiba mais

Curso Extensivo Residência Médica - 18 meses

Estude com nosso curso mais completo e tenha acesso a um material multimídia, elaborado por professores especialistas, de acordo com o conteúdo cobrado nas provas. Ideal para quem tem mais tempo para estudar e quer se dedicar ao máximo para obter os melhores resultados na sua preparação.
12x R$ 1.291,41
No Cartão de Crédito ou 10% de desconto no Boleto ou Pix à vista: R$ 13.947,30
Saiba mais

Curso Extensivo Residência Médica - 24 meses

Estude com nosso curso mais completo e tenha acesso a um material multimídia, elaborado por professores especialistas, de acordo com o conteúdo cobrado nas provas. Ideal para quem tem mais tempo para estudar e quer se dedicar ao máximo para obter os melhores resultados na sua preparação.
12x R$ 1.583,08
No Cartão de Crédito ou 10% de desconto no Boleto ou Pix à vista: R$ 17.097,30
Saiba mais

Curso Extensivo Residência Médica - 30 meses

Estude com nosso curso mais completo e tenha acesso a um material multimídia, elaborado por professores especialistas, de acordo com o conteúdo cobrado nas provas. Ideal para quem tem mais tempo para estudar e quer se dedicar ao máximo para obter os melhores resultados na sua preparação.
12x R$ 1.874,75
No Cartão de Crédito ou 10% de desconto no Boleto ou Pix à vista: R$ 20.247,30
Saiba mais

Curso Extensivo Residência Médica - 36 meses

Estude com nosso curso mais completo e tenha acesso a um material multimídia, elaborado por professores especialistas, de acordo com o conteúdo cobrado nas provas. Ideal para quem tem mais tempo para estudar e quer se dedicar ao máximo para obter os melhores resultados na sua preparação.
12x R$ 2.166,41
No Cartão de Crédito ou 10% de desconto no Boleto ou Pix à vista: R$ 23.397,30
Saiba mais

Veja Também

Canal do YouTube 

Referências Bibliográficas 

  1. DYNAMED. Tricuspid Atresia. Ipswich, MA: EBSCO Information Services, atualizado em 15 jul. 2025.
  1. MINOCHA, P. K.; HORENSTEIN, M. S.; PHOON, C. Tricuspid Atresia. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan.

Você pode gostar também