E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Doença da Arranhadura do Gato, uma infecção bacteriana causada principalmente pela Bartonella henselae, geralmente transmitida por arranhaduras ou mordidas de gatos, especialmente filhotes.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Doença da arranhadura do gato
A síndrome da arranhadura do gato é uma zoonose infecciosa causada principalmente pela bactéria Bartonella henselae, caracterizada, na sua forma típica, por linfadenite regional subaguda e autolimitada que surge após a inoculação cutânea do agente, geralmente por arranhadura, mordedura ou contato da saliva do gato com pele lesionada ou mucosas.
Os gatos domésticos, especialmente filhotes infestados por pulgas, constituem o principal reservatório do microrganismo, sendo a transmissão favorecida pela presença de ectoparasitas.
Após um período de incubação de alguns dias, pode surgir uma lesão cutânea primária no local da inoculação, seguida do aumento doloroso de linfonodos regionais, quadro que, na maioria dos indivíduos imunocompetentes, evolui de forma benigna e autolimitada.
Entretanto, em uma parcela menor dos casos, especialmente em imunodeprimidos ou adultos, a doença pode apresentar manifestações sistêmicas ou atípicas, com acometimento ocular, neurológico ou visceral, refletindo a capacidade da Bartonella henselae de disseminar-se hematogenamente e induzir resposta inflamatória granulomatosa nos tecidos afetados .
Fisiopatologia da Doença da arranhadura do gato
A fisiopatologia da doença da arranhadura do gato envolve uma sequência de eventos infecciosos e imunológicos desencadeados principalmente pela Bartonella henselae após a inoculação do microrganismo na pele ou mucosas humanas. A infecção geralmente ocorre por arranhadura, mordedura ou contato da saliva do gato com microlesões cutâneas, sendo os felinos, especialmente jovens e infestados por pulgas, o principal reservatório do agente.
Após a inoculação, a Bartonella henselae penetra nos tecidos locais e inicia um processo infeccioso inicial caracterizado pelo surgimento de uma lesão cutânea primária, que pode se manifestar como pápula ou vesícula eritematosa.
Em seguida, a bactéria dissemina-se pelos vasos linfáticos regionais, alcançando os linfonodos de drenagem, onde se estabelece o principal foco da doença. A bactéria apresenta tropismo por células endoteliais e eritrócitos, sendo capaz de aderir, invadir e persistir intracelularmente, o que contribui para a manutenção da infecção.
Nos linfonodos acometidos, ocorre uma intensa resposta inflamatória mediada por imunidade celular, com ativação de macrófagos, linfócitos e células endoteliais. Esse processo leva à formação de uma linfadenite granulomatosa, que evolui por estágios histopatológicos progressivos.
Inicialmente observa-se hiperplasia linfoide, seguida pela formação de áreas necróticas com infiltrado inflamatório misto e, em fases mais avançadas, pela constituição de microabscessos e abscessos, podendo haver supuração do linfonodo. A presença de granulomas e necrose reflete mais a resposta imune do hospedeiro do que a carga bacteriana propriamente dita, já que frequentemente poucos microrganismos são identificados nos tecidos.
A Bartonella henselae também é capaz de induzir um fenótipo pró-inflamatório e angioproliferativo nas células endoteliais, estimulando proliferação vascular. Esse mecanismo explica o aparecimento de manifestações sistêmicas e atípicas, como acometimento hepatoesplênico, ocular e neurológico, especialmente em indivíduos imunodeprimidos. A disseminação hematogênica pode ocorrer a partir do foco linfonodal, permitindo o envolvimento de órgãos distantes.
Epidemiologia da Doença da arranhadura do gato
A doença da arranhadura do gato é uma zoonose de distribuição mundial, associada principalmente ao contato com gatos domésticos, sobretudo filhotes. Cerca de 90% dos casos apresentam história de contato com gatos, geralmente por arranhadura ou mordedura. Os felinos são o principal reservatório da Bartonella henselae, e a pulga do gato atua como vetor na transmissão entre os animais.
A doença acomete principalmente crianças e adolescentes, sem predomínio entre os sexos, e ocorre com maior frequência em indivíduos imunocompetentes, nos quais o curso é habitualmente benigno e autolimitado. Em regiões de clima temperado, observa-se maior incidência no outono e inverno, enquanto em áreas tropicais essa sazonalidade é menos definida. Grupos com contato frequente com animais, como veterinários, apresentam maior risco, e formas mais graves são mais comuns em imunodeprimidos .
Manifestações clínicas da Doença da arranhadura do gato
As manifestações clínicas da doença da arranhadura do gato apresentam espectro amplo e seguem, em geral, uma cronologia característica após a inoculação da Bartonella henselae, variando desde formas localizadas e benignas até apresentações sistêmicas.
Fase inicial
Após a inoculação cutânea ou mucosa, geralmente por arranhadura, mordedura ou contato da saliva do gato com pele lesionada, ocorre um período de incubação de aproximadamente 3 a 10 dias. Nessa fase pode surgir a lesão primária de inoculação, que se manifesta como pápula, vesícula ou pequena lesão eritematosa, ocasionalmente evoluindo para crosta. Essa lesão é, em geral, pouco sintomática e regride espontaneamente em dias ou semanas.
Fase linfonodal
Entre 7 e 50 dias após a inoculação, desenvolve-se a manifestação clínica típica da doença, a linfadenopatia regional. Os linfonodos acometidos localizam-se próximos ao sítio de inoculação, sendo mais frequentes os axilares, cervicais, submandibulares, epitrocleares e inguinais. A adenopatia costuma ser unilateral, dolorosa, firme e móvel, podendo variar de poucos centímetros até volumes maiores.
Em cerca de 10 a 15% dos casos, ocorre a supuração linfonodal. Essa fase pode associar-se a sintomas sistêmicos leves, como febre baixa, mal-estar, fadiga, cefaleia, anorexia, mialgia e artralgia. A linfadenopatia geralmente persiste por 2 a 3 meses, com resolução progressiva.
Fase de resolução
Na maioria dos indivíduos imunocompetentes, a doença mantém-se localizada e evolui de forma benigna e autolimitada, com regressão gradual da adenopatia e desaparecimento dos sintomas sistêmicos, sem sequelas.
Manifestações sistêmicas e atípicas.
Em uma minoria dos pacientes, estimada em 10 a 15%, ocorre disseminação sistêmica, geralmente semanas após o início da linfadenopatia. Essas formas incluem acometimento hepatoesplênico, caracterizado por febre prolongada, dor abdominal, hepatomegalia e esplenomegalia; manifestações oculares, como a síndrome oculoglandular de Parinaud e a neuroretinite; manifestações neurológicas, como encefalopatia, convulsões e alterações do nível de consciência; além de envolvimento musculoesquelético, ósseo ou, mais raramente, cardíaco. As apresentações sistêmicas são mais frequentes em adultos e indivíduos imunodeprimidos, nos quais a evolução pode ser mais prolongada e associada a maior morbidade.
Diagnóstico da Doença da arranhadura do gato
Inicialmente, o diagnóstico é presuntivo, baseado na presença de linfadenopatia regional subaguda, geralmente dolorosa, associada a história de contato recente com gatos, em especial filhotes, com ou sem relato de arranhadura, mordedura ou contato com saliva em pele lesionada. A identificação prévia de lesão cutânea de inoculação fortalece a suspeita clínica. Em casos típicos, esse conjunto de achados costuma ser suficiente para o manejo inicial.
- Diagnóstico epidemiológico: fundamenta-se na exposição a gatos domésticos, principalmente jovens e infestados por pulgas, além da ocorrência mais frequente em crianças e adolescentes. Esses dados são essenciais para diferenciar a doença de outras causas de adenomegalia regional.
- Sorologia para Bartonella henselae: realizada por imunofluorescência indireta ou ensaios imunoenzimáticos, detecta anticorpos específicos e auxilia na confirmação do diagnóstico. Títulos elevados ou soroconversão sugerem infecção recente, porém resultados negativos não excluem a doença, e reações cruzadas podem ocorrer.
- Técnicas moleculares (PCR): permitem a detecção do DNA da bactéria em amostras de linfonodo, sangue ou outros tecidos. São métodos mais específicos e úteis principalmente em formas atípicas ou sistêmicas, embora a sensibilidade varie conforme o estágio da doença e o tipo de amostra.
- Exame histopatológico: indicado quando há dúvida diagnóstica ou necessidade de excluir outras etiologias, como neoplasias ou tuberculose. Os achados incluem hiperplasia linfoide, granulomas com necrose central e microabscessos, podendo-se demonstrar bacilos pela coloração de Warthin Starry.
- Cultura bacteriana: possível a partir de material clínico, porém pouco utilizada na prática devido ao crescimento lento e exigente da Bartonella henselae, além da baixa disponibilidade em laboratórios de rotina.
- Diagnóstico diferencial: deve considerar outras causas de linfadenopatia regional, como infecções bacterianas e virais, micobactérias, toxoplasmose e neoplasias, especialmente nos casos de evolução atípica ou prolongada.
Tratamento da Doença da arranhadura do gato
A doença da arranhadura do gato é, na maioria dos casos, benigna e autolimitada, porém o tratamento antimicrobiano é recomendado para reduzir a duração dos sintomas e o risco de complicações sistêmicas.
Forma típica – linfadenite regional isolada
O tratamento de primeira linha é a azitromicina, que demonstrou reduzir mais rapidamente o volume linfonodal. Mesmo pacientes imunocompetentes e com quadro leve podem ser tratados.
Alternativas em caso de intolerância incluem claritromicina, rifampicina ou sulfametoxazol-trimetoprim.
A drenagem cirúrgica não é indicada. Em linfonodos muito dolorosos ou supurativos, pode-se realizar aspiração com agulha para alívio sintomático.
Linfadenite refratária
Se não houver melhora após 3 a 4 semanas, deve-se reavaliar o diagnóstico. Mantida a suspeita de doença da arranhadura do gato, pode-se repetir o tratamento com azitromicina associada à rifampicina.
- Forma disseminada: hepatoesplênica ou febre de origem indeterminada: Indica-se terapia antimicrobiana combinada, preferencialmente azitromicina + rifampicina.
- Esquemas alternativos incluem rifampicina + gentamicina em pacientes selecionados.
- O tratamento é mais prolongado e a resposta deve ser monitorada clinicamente.
Manifestações neurológicas e oculares
Sempre devem ser tratadas.
- O esquema de escolha é doxiciclina associada à rifampicina, especialmente em adultos e crianças maiores.
- Em crianças pequenas ou quando a doxiciclina é contraindicada, utilizam-se rifampicina + azitromicina ou rifampicina + sulfametoxazol-trimetoprim
- Na neuroretinite, o tratamento é prolongado, geralmente por 4 a 6 semanas.
Uso de corticosteroides
Indicado como terapia adjuvante na neuroretinite, associado ao antibiótico, visando reduzir inflamação e risco de sequelas visuais. Pode ser considerado em casos graves ou persistentes, mas não é rotina.
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PR – Associação Médica do Paraná – AMP – 2018 – Residência (Acesso Direto)
Paciente de 42 anos de idade, relata aumento de volume de linfonodo axilar à esquerda, doloroso, e febre. Trabalha como cuidador de animais, com cães e gatos. Nega comorbidades. Ao exame apresenta: T = 37,9ºC, com linfadenopatia axilar à esquerda dolorosa, lesão pustulosa em antebraço esquerdo de 0,5 cm de diâmetro. Assinale a assertiva que contém o patógeno mais provável e o tratamento antimicrobiano correto para este.
A) S. aureus; sulfametoxazol + trimetoprim.
B) M. tuberculosis; esquema RIPE.
C) B. henselae; azitromicina.
D) M. avium; azitromicina.
E) Y. pestis; doxiciclina.
Comentário da questão:
A) Incorreta a alternativa “a”. O S. aureus não é o agente etiológico da doença da arranhadura do gato.
B) Incorreta a alternativa “b”. Como vimos, o paciente apresenta clínica de doença da arranhadura do gato e não de tuberculose, portanto essa alternativa está errada.
C) Correta a alternativa “c”. A Bartonella henselae é um bacilo gram-negativo e o agente etiológico da doença da arranhadura do gato. O tratamento é feito com azitromicina por 5 dias.
D) Incorreta a alternativa “d”. O M. avium não é o agente etiológico da doença da arranhadura do gato.
E) Incorreta a alternativa “e”, pois a Y. pestis é o agente etiológico da peste bubônica, doença transmitida por pulgas de roedores. Se caracteriza clinicamente pelo aparecimento súbito de febre, calafrios, astenia e cefaleia, seguido de linfadenopatia dolorosa. As lesões de pele no local da inoculação são geralmente inaparentes e a maioria dos pacientes ignora ou esquece. O tratamento de escolha é feito com aminoglicosídeos, sendo a doxicilina droga alternativa.
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Referências
HAGIWARA, Mitika K.; DRUMMOND, Marina Rovani; FERREIRO VELHO, Paulo Eduardo Neves. Doença da arranhadura do gato. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Coordenadoria de Controle de Doenças, [s.d.]. Série Zoonoses. Disponível em: https://www.saude.sp.gov.br/resources/ccd/publicacoes/publicacoes-ccd/zoonoses/doenca_arranhadura_gato.pdf. Acesso em: 27 jan. 2026.
SPACH, David H.; KAPLAN, Sheldon L. Microbiology, epidemiology, clinical manifestations, and diagnosis of cat scratch disease. In: UpToDate. Waltham: UpToDate Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com.
SPACH, David H.; KAPLAN, Sheldon L. Treatment of cat scratch disease. In: UpToDate. Waltham: UpToDate Inc., 2024. Atualizado em 16 fev. 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com.



