E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome do eutireoidiano doente, uma condição caracterizada por alterações nos níveis dos hormônios tireoidianos em pacientes com doenças agudas ou crônicas graves, sem disfunção primária da tireoide, refletindo uma adaptação do organismo ao estresse sistêmico.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição da síndrome do eutireoidiano doente
A síndrome do eutireoideo doente (também chamada de nonthyroidal illness syndrome) é uma condição caracterizada por alterações nos exames de função tireoidiana observadas em pacientes com doenças agudas ou críticas, especialmente em ambiente hospitalar ou de terapia intensiva, sem que haja uma doença primária da tireoide.
Trata-se de um fenômeno transitório, decorrente de modificações no eixo hipotálamo-hipófise-tireoide, presente em cerca de 75% dos pacientes hospitalizados. É mais comum em situações como doenças graves, jejum prolongado/desnutrição e no pós-operatório de grandes cirurgias.
O padrão laboratorial mais típico consiste em:
- redução dos níveis de T3 total e T3 livre;
- T4 normal ou reduzido;
- TSH normal ou baixo.
Portanto, não representa uma disfunção tireoidiana verdadeira, mas sim uma resposta adaptativa do organismo ao estresse sistêmico.
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Etiologia da síndrome do eutireoidiano doente
A etiologia da síndrome do eutireoidiano doente é ampla e está relacionada a diversas condições clínicas que cursam com estresse metabólico importante ou doença sistêmica grave, e não a uma alteração primária da tireoide.
Essa síndrome pode ser desencadeada por:
- Doenças infecciosas graves, como pneumonia, sepse e infecção por COVID-19;
- Estados de desnutrição ou privação calórica, incluindo jejum prolongado e anorexia nervosa;
- Situações de estresse fisiológico intenso, como traumas (ex.: fratura de quadril), grandes queimaduras e cirurgias de grande porte;
- Doenças cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca congestiva;
- Condições inflamatórias e crônicas, incluindo doença inflamatória intestinal e cirrose hepática;
- Doenças graves sistêmicas, como insuficiência renal e neoplasias malignas;
- Situações clínicas específicas, como pós-transplante de órgãos, circulação extracorpórea (cirurgia cardíaca) e cetoacidose diabética;
- Alterações ambientais ou metabólicas extremas, como hipotermia.
Mais recentemente, observou-se associação com a infecção por COVID-19, sendo que níveis reduzidos de T3 nesses pacientes podem inclusive atuar como marcador prognóstico de pior evolução, mesmo em fases iniciais da doença.
Fisiopatologia da síndrome do eutireoidiano doente
A fisiopatologia da síndrome do eutireoidiano doente é multifatorial e envolve alterações complexas no eixo hipotálamo-hipófise-tireoide, além de modificações no metabolismo periférico e no transporte dos hormônios tireoidianos.
Um dos principais mecanismos é a ação de citocinas inflamatórias (como IL-1, IL-6, TNF-alfa e interferon-beta), liberadas durante doenças graves. Essas substâncias atuam no hipotálamo e na hipófise, levando à redução da produção de TRH e TSH, além de diminuírem a síntese de T3 e proteínas transportadoras, como a globulina ligadora de tiroxina (TBG). Também reduzem a ação dos hormônios tireoidianos nos tecidos ao diminuir a ligação do T3 aos seus receptores nucleares.
Outro ponto central é a alteração na atividade das desiodinases, enzimas responsáveis pela conversão dos hormônios tireoidianos:
- há redução da atividade da desiodinase tipo 1 (D1), o que diminui a conversão periférica de T4 em T3;
- há aumento da atividade das desiodinases tipo 2 (D2) e tipo 3 (D3), favorecendo a formação de metabólitos inativos, como o reverse T3 (rT3).
Além disso, diversos fatores contribuem para a diminuição do T3 sérico:
- níveis elevados de cortisol (endógeno ou por uso de corticosteroides);
- medicamentos como amiodarona e propranolol, que interferem na conversão periférica hormonal.
Também ocorrem alterações no transporte dos hormônios tireoidianos:
- a presença de inibidores circulantes reduz a ligação dos hormônios às proteínas transportadoras;
- a redução da albumina sérica e o aumento de ácidos graxos livres deslocam os hormônios da TBG;
- fármacos como aspirina e heparina prejudicam essa ligação, reduzindo os níveis totais de T3 e T4, podendo causar elevação transitória das frações livres.
Em conjunto, esses mecanismos levam ao padrão típico da síndrome, com redução predominante do T3, refletindo uma adaptação metabólica do organismo frente ao estresse sistêmico.
Manifestações clínicas da síndrome do eutireoidiano doente
As manifestações clínicas da síndrome do eutireoidiano doente são inespecíficas e, na maioria das vezes, não decorrem diretamente da alteração hormonal tireoidiana, mas sim da doença de base que levou ao seu desenvolvimento.
- Não há sinais ou sintomas típicos próprios da síndrome;
- O quadro clínico é dominado pelas manifestações da condição subjacente (como sepse, trauma, insuficiência orgânica, entre outras).
Um aspecto importante é que essa síndrome pode ocorrer em pacientes com doenças tireoidianas prévias, podendo:
- mascarar sinais clássicos de hipotireoidismo (como bradicardia, pele seca, lentificação);
- ou atenuar manifestações de hipertireoidismo (como taquicardia e perda de peso).
Isso torna a avaliação clínica mais desafiadora, exigindo cautela para não confundir alterações laboratoriais transitórias com uma disfunção tireoidiana verdadeira.
Diagnóstico da síndrome do eutireoidiano doente
O diagnóstico da síndrome do eutireoidiano doente é essencialmente laboratorial e deve sempre ser interpretado no contexto clínico de um paciente com doença sistêmica aguda ou grave, uma vez que não há achados clínicos específicos.
Essa condição pode apresentar diferentes padrões hormonais, sendo classificada em:
- síndrome do T3 baixo (a mais comum);
- síndrome do T3 e T4 baixos;
- síndrome do T4 elevado;
- outras alterações menos frequentes.
O achado mais característico é a redução do T3 total, presente em cerca de 70% dos pacientes hospitalizados. Além disso:
- há aumento do T3 reverso (rT3), devido à diminuição da conversão periférica de T4 em T3;
- o T4 pode estar normal, reduzido ou, em algumas situações, elevado;
- o TSH geralmente permanece normal ou reduzido.
Nos casos mais graves, especialmente em pacientes críticos:
- observa-se redução concomitante de T3 e T4;
- Níveis baixos de T4 total estão associados a pior prognóstico;
- O índice de T4 livre pode estar reduzido, mesmo com TBG normal.
Diversos fatores podem interferir na interpretação dos exames laboratoriais na síndrome do eutireoidiano doente. Entre eles, destacam-se alguns medicamentos, como a dopamina e os corticosteroides, que podem levar à redução dos níveis de TSH e de T4 livre, dificultando a análise adequada da função tireoidiana.
Além disso, fármacos como a amiodarona e o uso de contrastes iodados podem provocar elevação dos níveis de T4. Alterações nas proteínas transportadoras, especialmente na globulina ligadora de tiroxina (TBG), também influenciam os níveis hormonais totais, sem necessariamente refletir uma disfunção tireoidiana verdadeira.
Em condições específicas, como a infecção pelo HIV, podem ser observados padrões atípicos nos testes de função tireoidiana, o que torna a interpretação ainda mais desafiadora.
É fundamental ressaltar que não há indicação de exames de imagem ou de biópsia da tireoide para o diagnóstico da síndrome do eutireoidiano doente, uma vez que se trata de uma alteração funcional e transitória, e não estrutural da glândula.
Tratamento da síndrome do eutireoidiano doente
O tratamento da síndrome do eutireoidiano doente é, na maioria dos casos, conservador e baseado principalmente no manejo da doença de base, não sendo indicada a reposição de hormônios tireoidianos de rotina.
A principal conduta consiste em:
- tratar a condição clínica subjacente (infecção, trauma, insuficiência orgânica, entre outras), que é o fator responsável pelas alterações hormonais;
- realizar monitorização periódica da função tireoidiana durante a internação.
Após a alta hospitalar, as alterações nos exames podem persistir por algumas semanas. Por isso, em pacientes clinicamente eutireoideos, recomenda-se repetir os testes de função tireoidiana apenas após pelo menos 6 semanas, com o objetivo de:
- confirmar normalização dos parâmetros (caracterizando a síndrome do eutireoidiano doente);
- ou identificar uma possível disfunção tireoidiana verdadeira, caso as alterações persistam.
A realização precoce desses exames pode gerar confusão diagnóstica, pois durante a fase de recuperação é comum observar elevação transitória do TSH, o que pode simular hipotireoidismo.
Em situações específicas, como em crianças submetidas a cirurgia cardíaca, alguns estudos sugerem que o uso profilático de hormônio tireoidiano pode reduzir complicações, especialmente isquêmicas. No entanto, essa estratégia não faz parte da prática rotineira e é restrita a contextos selecionados.
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Referências
Ganesan K, Anastasopoulou C, Wadud K. Euthyroid Sick Syndrome. [Updated 2022 Dec 8]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482219/
Douglas S Ross, MD. Thyroid function in nonthyroidal illness. UpToDate, 2024. Disponível em: UpToDate



