E aí, doc! Vamos dar continuidade a esse tema essencial? No conteúdo anterior, falamos sobre os principais conceitos da síndrome nefrítica. Agora, vamos aprofundar aspectos fundamentais, como manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento, para consolidar ainda mais o seu conhecimento sobre essa importante síndrome renal.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Síndrome Nefrítica
Síndrome nefrítica é uma síndrome clínica decorrente da inflamação dos glomérulos renais, caracterizada principalmente por hematúria, frequentemente acompanhada pela presença de cilindros hemáticos, proteinúria de intensidade variável, leucocitúria, oligúria, edema e hipertensão arterial. Essa inflamação compromete a barreira de filtração glomerular, reduzindo a taxa de filtração glomerular e permitindo a passagem de hemácias e outras células para a urina.
A síndrome nefrítica está associada, principalmente, às glomerulonefrites proliferativas, podendo resultar de doenças primárias dos rins ou ser uma manifestação secundária de doenças sistêmicas. Entre as principais causas estão a glomerulonefrite aguda pós-infecciosa, a glomerulonefrite rapidamente progressiva (crescêntica), a nefrite lúpica proliferativa, a nefropatia por IgA e vasculites associadas a imunocomplexos ou anticorpos anti-membrana basal glomerular.
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Manifestações clínicas da Síndrome nefrítica
As manifestações clínicas resultam da inflamação glomerular e da consequente redução da taxa de filtração glomerular, levando à retenção de sódio e água, além da perda de hemácias e proteínas pela urina. O quadro clínico pode apresentar evolução aguda, subaguda ou progressiva, dependendo da etiologia.
- Edema: o edema é um dos achados mais frequentes da síndrome nefrítica e decorre principalmente da retenção de sódio e água. Inicialmente, manifesta-se como edema periorbitário, mais evidente ao despertar, evoluindo para edema de membros inferiores, especialmente ao final do dia. Nos casos mais graves, pode haver sinais de sobrecarga volêmica, como ingurgitamento da veia jugular, edema com cacifo e estertores pulmonares.
- Hematúria: a hematúria é a principal manifestação da síndrome nefrítica e ocorre devido à lesão da barreira de filtração glomerular. A urina pode apresentar coloração avermelhada, marrom ou semelhante à “cor de coca-cola”, refletindo a presença de hemácias provenientes do glomérulo. Ao exame do sedimento urinário, são frequentemente observadas hemácias dismórficas e cilindros hemáticos, considerados achados característicos de glomerulonefrite.
- Proteinúria: a proteinúria está presente na maioria dos pacientes, porém geralmente é leve a moderada, inferior a 3,5 g/24 horas, diferentemente da síndrome nefrótica. Quando a perda proteica é mais acentuada, a urina pode apresentar aspecto espumoso.
- Hipertensão arterial: a hipertensão arterial é uma manifestação frequente e resulta da diminuição da filtração glomerular e da retenção de sódio e água. Em pacientes previamente hipertensos, pode ocorrer descontrole dos níveis pressóricos.
- Oligúria e insuficiência renal: a redução da taxa de filtração glomerular leva à oligúria, caracterizada pela diminuição do volume urinário. Nos casos mais graves, pode ocorrer insuficiência renal aguda, acompanhada de elevação das concentrações séricas de ureia e creatinina (azotemia).
Sintomas gerais
Alguns pacientes apresentam manifestações sistêmicas inespecíficas, como:
- Febre;
- Fadiga;
- Mal-estar geral.
Esses sintomas são mais comuns quando a síndrome nefrítica está associada a processos infecciosos ou doenças inflamatórias sistêmicas.
Manifestações relacionadas à doença de base
Os sinais e sintomas variam conforme a etiologia da síndrome nefrítica e podem fornecer importantes pistas diagnósticas.
- Infecção recente de vias aéreas superiores ou impetigo sugere glomerulonefrite pós-infecciosa.
- Púrpura palpável, artralgias e edema articular podem indicar vasculites sistêmicas, vasculite por IgA ou lúpus eritematoso sistêmico.
- Hemoptise e dispneia sugerem acometimento pulmonar, característico da doença anti-membrana basal glomerular (síndrome de Goodpasture) ou de vasculites ANCA-associadas.
- História de infecção viral ou exposição a hidrocarbonetos também pode estar relacionada a algumas formas de glomerulonefrite.
Exame físico
O exame físico pode revelar:
- Palidez cutaneomucosa, secundária à anemia;
- Hipertensão arterial;
- Edema periorbitário e periférico;
- Ingurgitamento da veia jugular, estertores pulmonares e edema com cacifo nos casos de sobrecarga volêmica;
- Sopro cardíaco em pacientes com endocardite infecciosa;
- Púrpura palpável e articulações dolorosas ou edemaciadas em pacientes com vasculites ou outras doenças autoimunes.
A evolução da síndrome nefrítica depende da doença de base. Em crianças com glomerulonefrite pós-estreptocócica, o quadro costuma ser agudo e autolimitado, com recuperação completa na maioria dos casos. Em adultos, especialmente na glomerulonefrite rapidamente progressiva, a evolução pode ser rápida e grave, levando à perda acelerada da função renal se não houver diagnóstico e tratamento precoces.
Diagnóstico de Síndrome nefrítica
O diagnóstico da síndrome nefrítica baseia-se na avaliação clínica, exames laboratoriais e, quando indicada, biópsia renal. O objetivo é confirmar a origem glomerular da lesão e identificar sua etiologia.
- Urinálise: a urinálise (EAS) é o principal exame inicial. Os achados característicos incluem hematúria glomerular, com hemácias dismórficas (acantócitos) e cilindros hemáticos, além de proteinúria geralmente inferior a 3,5 g/24 horas e leucocitúria na ausência de infecção urinária.
- Avaliação da função renal: a dosagem de creatinina e ureia, juntamente com a estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG), permite avaliar o comprometimento da função renal, sendo comum a presença de azotemia e redução da TFG.
- Investigação etiológica: os exames sorológicos são solicitados conforme a suspeita clínica e incluem C3 e C4, ASLO, ANA, anti-dsDNA, ANCA, anticorpos anti-MBG e sorologias para hepatites B e C, auxiliando na identificação da doença de base.
- Biópsia renal: a biópsia renal é o padrão-ouro para o diagnóstico etiológico, permitindo definir o tipo de glomerulonefrite e orientar o tratamento, sendo indicada principalmente nos casos de insuficiência renal rapidamente progressiva, suspeita de doença sistêmica ou diagnóstico incerto.
Tratamento da Síndrome nefrítica
O tratamento é direcionado à doença de base, sendo inicialmente composto por medidas de suporte para controlar a hipertensão arterial, o edema e a sobrecarga volêmica, além de preservar a função renal.
Medidas de suporte
O controle da hipertensão arterial é fundamental e deve ser realizado, inicialmente, com restrição de sódio e líquidos, associada ao uso de diuréticos de alça. Quando essas medidas não são suficientes, podem ser utilizados inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA), bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA) e bloqueadores dos canais de cálcio, como a nifedipina.
Os diuréticos de alça também são indicados para reduzir o edema e a retenção de sódio e água, aliviando a sobrecarga de volume e melhorando a função renal.
Tratamento específico
Em glomerulonefrites de origem imunológica, os corticosteroides podem ser utilizados para reduzir a inflamação glomerular. Nos casos mais graves, especialmente na glomerulonefrite rapidamente progressiva, pode ser necessária a associação de imunossupressores. Entretanto, seu uso deve ser individualizado, pois em glomerulonefrites associadas a infecções, como a endocardite estafilocócica, a imunossupressão pode agravar o quadro infeccioso.
Quando a síndrome nefrítica é desencadeada por infecção estreptocócica, recomenda-se o tratamento com penicilina. Em pacientes alérgicos, a eritromicina é uma alternativa. O tratamento precoce da infecção reduz a gravidade e a incidência da glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Terapia renal substitutiva
Nos casos de evolução grave, com desenvolvimento de insuficiência renal aguda e comprometimento importante da função renal, pode ser necessária a diálise como terapia renal substitutiva, até que ocorra recuperação da função renal ou seja definido o tratamento definitivo.
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A síndrome nefrítica em crianças é uma condição clínica caracterizada por um conjunto de sintomas decorrentes da inflamação glomerular. É crucial reconhecer os sintomas e sinais de alerta precocemente para tratar a condição de forma eficaz e prevenir complicações.
Assinale a alternativa correta em relação aos principais sintomas na síndrome nefrítica.
A) A presença de sangue na urina é uma característica da síndrome nefrítica e, geralmente, o dimorfismo eritrocitário é ausente nestes casos.
B) Oligúria é um sinal de alerta significativo, porém não indica comprometimento da função renal.
C) A pressão arterial elevada é comumente observada em crianças com síndrome nefrítica, podendo ser grave e exigir atenção médica imediata.
D) Edema generalizado é um sintoma comum devido à hipoalbuminemia.
Comentário da questão:
Olá, Estrategista!
Vamos aproveitar essa questão para revisar conceitos sobre a síndrome nefrítica!
A síndrome nefrítica é uma apresentação clínica caracterizada por inflamação glomerular aguda, manifestando-se classicamente pela tríade: hematúria (frequentemente macroscópica), edema e hipertensão arterial.

Diferentemente da síndrome nefrótica, a síndrome nefrítica apresenta proteinúria leve a moderada (geralmente subnefrótica), além de poder manifestar função renal comprometida (com elevação de ureia e creatinina) e oligúria. A glomerulonefrite aguda pós-infecciosa, especialmente pós-estreptocócica, é a causa mais comum em crianças, representando um quadro de glomerulonefrite proliferativa difusa mediada por imunocomplexos.
O reconhecimento precoce dos sinais e sintomas é fundamental para o manejo adequado. A hematúria é o achado mais característico, ocorrendo em 67-100% dos casos, podendo ser macroscópica (urina “cor de coca-cola” ou “cor de chá”) ou microscópica.
A hipertensão arterial está presente em 87-90% dos casos e pode ser grave, levando a complicações como encefalopatia hipertensiva e insuficiência cardíaca congestiva.
O edema ocorre em 93-95% dos pacientes, sendo tipicamente periorbital (mais evidente pela manhã) e em membros inferiores, resultando da retenção de sódio e água secundária à redução da taxa de filtração glomerular e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Aqui, a avaliação laboratorial é essencial para confirmar o diagnóstico e diferenciar síndrome nefrítica de outras condições. A urinálise revela hematúria com presença de hemácias dismórficas (>25% das hemácias) e cilindros hemáticos, achados altamente específicos para doença glomerular.
As hemácias dismórficas apresentam morfologia irregular, com protrusões e deformidades, resultantes da passagem através da membrana basal glomerular lesada, diferenciando-se das hemácias isomórficas (uniformes) observadas em sangramentos do trato urinário inferior.
A proteinúria é geralmente leve a moderada (<2g/g), contrastando com a proteinúria maciça da síndrome nefrótica. A função renal pode estar comprometida, com elevação de ureia e creatinina, e a hipocomplementemia (C3 baixo) é característica da GNPE.
Sobre a evolução, aqui costuma ser boa. Durante o curso natural da doença, a normalização do débito urinário ocorre na primeira semana, a hipertensão resolve-se nas duas primeiras semanas e a função renal normaliza-se ao longo de um mês. Os níveis de complemento voltam aos valores normais em até oito semanas, e a hematúria microscópica pode persistir nos exames de urina por até seis meses a um ano. O prognóstico é considerado excelente, sendo a terapia renal substitutiva raramente necessária em crianças, bem como a evolução para doença renal crônica em estágio terminal (< 1% dos casos).
Muito bem, agora vamos às alternativas:
A) INCORRETA: A hematúria é realmente característica da síndrome nefrítica, porém o dimorfismo eritrocitário (hemácias dismórficas) está PRESENTE e é um achado diagnóstico fundamental, com alta especificidade para doença glomerular.
B) INCORRETA: A oligúria na síndrome nefrítica é justamente um sinal de comprometimento da função renal. A oligúria resulta da redução da taxa de filtração glomerular secundária à inflamação glomerular aguda, refletindo disfunção renal. Frequentemente se associa a elevação de ureia e creatinina séricas, confirmando o comprometimento da função renal. A oligúria é um sinal de alerta importante que indica necessidade de monitorização rigorosa do balanço hídrico e da função renal.
C) CORRETA: Agora sim, esta afirmação está completamente correta. A hipertensão arterial ocorre em 87-90% das crianças com síndrome nefrítica e é secundária à expansão do volume extracelular (retenção de sódio e água) e ativação do sistema renina-angiotensina. Pode ser grave e potencialmente fatal, levando a complicações como encefalopatia hipertensiva (com convulsões, cefaleia, alterações visuais), insuficiência cardíaca congestiva e edema pulmonar.
D) INCORRETA: Como vimos, o edema é até realmente comum na síndrome nefrítica, mas o mecanismo fisiopatológico descrito está incorreto. Na síndrome nefrítica, o edema resulta primariamente da retenção primária de sódio e água pelos rins (devido à redução da filtração glomerular e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona), e não da hipoalbuminemia. A hipoalbuminemia até é característica da síndrome nefrótica, onde a proteinúria maciça leva à redução da pressão oncótica e formação de edema. Mas, na síndrome nefrítica, a proteinúria é leve a moderada e a albumina sérica geralmente está normal ou levemente reduzida.
Veja também!
- Resumo sobre Síndrome Nefrítica: definição, fisiopatologia e mais!
- Resumo da síndrome nefrótica: diagnóstico, tratamento e mais!
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- Resumo sobre Lesão Renal Aguda: definição, manifestações clínicas e mais!
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- Resumo sobre Acidose Tubular Renal: definição, fisiopatologia e mais!
Referências
Hashmi MS, Pandey J. Nephritic Syndrome. [Updated 2023 Aug 8]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK562240/
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