Resumo sobre Doença de Creutzfeldt-Jakob: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: Magnific

Resumo sobre Doença de Creutzfeldt-Jakob: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Doença de Creutzfeldt-Jakob, uma encefalopatia neurodegenerativa rara e rapidamente progressiva causada por príons, proteínas infecciosas anormais que levam à degeneração espongiforme do sistema nervoso central.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurodegenerativa rara, rapidamente progressiva e fatal, causada por proteínas priônicas anormais (príons). Pertence ao grupo das encefalopatias espongiformes transmissíveis e afeta principalmente o sistema nervoso central. Sua incidência é de cerca de 1 caso por milhão de habitantes por ano.

A doença provoca degeneração progressiva dos neurônios, levando a sintomas neurológicos graves, como demência rapidamente progressiva, alterações cognitivas, distúrbios motores e mioclonias. Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, mas evoluem rapidamente devido ao caráter irreversível da lesão neuronal.

A DCJ pode ocorrer nas formas esporádica, genética ou infecciosa, apresentando longo período de incubação e evolução geralmente fatal, com óbito ocorrendo em grande parte dos pacientes dentro de um ano após o diagnóstico. O reconhecimento precoce é importante para o manejo clínico e cuidados de suporte.

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Epidemiologia da doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma doença priônica rara, com incidência de aproximadamente 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano no mundo. A forma esporádica é a mais comum, correspondendo a cerca de 85% a 90% dos casos, enquanto a forma genética representa 10% a 15%. As formas iatrogênica e variante são raras, com menos de 1% dos casos.

A idade média de início é em torno de 62 anos, sem predileção entre os sexos. Algumas regiões apresentam maior incidência devido à ocorrência de formas genéticas da doença. Fatores genéticos relacionados ao gene PRNP aumentam o risco de desenvolvimento da DCJ.

Etiologia da doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob é causada por príons, proteínas infecciosas anormais que promovem degeneração progressiva do sistema nervoso central. Os príons não possuem material genético e atuam transformando proteínas priônicas normais do cérebro em formas anormais e resistentes à degradação.

A proteína priônica normal (PrP) apresenta estrutura predominantemente em alfa-hélice. Quando sofre alteração conformacional, transforma-se em uma proteína rica em folhas β-pregueadas, tornando-se resistente à ação de enzimas. O acúmulo dessas proteínas anormais provoca lesão neuronal e encefalopatia espongiforme.

A DCJ pode ser dividida em três principais formas etiológicas:

Forma esporádica

É a forma mais comum, correspondendo a aproximadamente 85% dos casos. Ocorre de maneira espontânea, sem causa identificável, devido ao dobramento anormal das proteínas priônicas normais.

Subtipos:

  • Insônia fatal esporádica
  • Prionopatia variável sensível à protease

Forma genética

Representa cerca de 10% a 15% dos casos e está relacionada a mutações hereditárias no gene da proteína priônica.

Subtipos:

  • DCJ familiar
  • Insônia familiar fatal
  • Síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker

Forma infecciosa

Corresponde a menos de 1% dos casos e resulta da transmissão de príons por fontes externas.

Subtipos:

  • Kuru: associado ao canibalismo ritualístico em populações da Papua-Nova Guiné
  • DCJ iatrogênica: transmitida por instrumentos cirúrgicos contaminados ou transfusões sanguíneas
  • Variante da DCJ: relacionada ao consumo de carne bovina contaminada pela encefalopatia espongiforme bovina (“doença da vaca louca”)

Fisiopatologia da Doença de Creutzfeldt-Jakob

A fisiopatologia da doença de Creutzfeldt-Jakob está relacionada à conversão anormal da proteína priônica normal (PrPC) em uma forma patológica denominada PrPSc. Essa proteína anormal possui capacidade de auto propagação, induzindo outras proteínas normais a adquirirem a mesma conformação defeituosa.

O acúmulo progressivo dessas proteínas no sistema nervoso central provoca:

  • Degeneração neuronal
  • Vacuolização do tecido cerebral
  • Formação de encefalopatia espongiforme
  • Neurotoxicidade progressiva

Essas alterações resultam em rápida deterioração neurológica e perda neuronal irreversível.

Formas fisiopatológicas da DCJ

1. DCJ esporádica

É a forma mais comum. Sua origem exata permanece desconhecida, mas acredita-se que ocorra por:

  • Alterações espontâneas da proteína priônica
  • Possíveis mutações somáticas no gene PRNP

Alguns estudos sugerem influência de fatores ambientais, porém essa relação ainda não está comprovada.

2. DCJ genética

Ocorre devido a mutações hereditárias no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica. Essas mutações favorecem a formação das proteínas anormais e a progressão da doença.

3. Variante da DCJ

Relaciona-se à transmissão de príons bovinos causadores da encefalopatia espongiforme bovina (“doença da vaca louca”), geralmente após ingestão de carne contaminada.

4. DCJ iatrogênica

Resulta da transmissão de príons durante procedimentos médicos, como:

  • Transplantes de dura-máter
  • Uso de hormônio de crescimento derivado de cadáveres
  • Instrumentos neurocirúrgicos contaminados
  • Raramente, transfusões sanguíneas

Os príons apresentam elevada resistência aos métodos convencionais de esterilização. Por isso, materiais potencialmente contaminados exigem protocolos específicos de descontaminação, principalmente em procedimentos neurocirúrgicos.

Manifestações clínicas da Doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob caracteriza-se por rápida deterioração neurológica e neuropsiquiátrica, geralmente evoluindo para óbito em menos de um ano após o início dos sintomas.

Alterações cognitivas e neuropsiquiátricas

São manifestações universais da doença e frequentemente representam os sintomas iniciais.

Principais achados:

  • Demência rapidamente progressiva
  • Déficits de memória, atenção e julgamento
  • Alterações comportamentais
  • Apatia e depressão
  • Ansiedade e labilidade emocional
  • Alucinações visuais e sintomas psicóticos
  • Afasia, apraxia e síndrome frontal

Com a progressão da doença, a demência torna-se grave e dominante.

Mioclonias

As mioclonias, especialmente desencadeadas por estímulos súbitos, ocorrem em mais de 90% dos pacientes durante a evolução da doença e constituem um importante sinal clínico da DCJ.

Manifestações cerebelares

O comprometimento cerebelar ocorre em cerca de dois terços dos pacientes.

Principais manifestações:

  • Ataxia
  • Nistagmo
  • Instabilidade da marcha
  • Incoordenação motora

Em alguns casos, especialmente na DCJ iatrogênica, os sintomas cerebelares podem ser a manifestação inicial predominante.

Sinais piramidais

O acometimento do trato corticoespinal pode causar:

  • Hiperreflexia
  • Espasticidade
  • Sinal de Babinski

Sinais extrapiramidais

Também podem estar presentes:

  • Bradicinesia
  • Hipocinesia
  • Rigidez
  • Distonia

Alterações do sono

Distúrbios do sono são frequentes, incluindo:

  • Hipersonia
  • Insônia

Fase avançada

Nos estágios finais, os pacientes frequentemente evoluem para:

  • Mutismo acinético
  • Maior intensidade de mioclonias
  • Espasticidade
  • Convulsões

Manifestações atípicas

Alguns achados são menos comuns e podem sugerir diagnósticos alternativos:

  • Alterações de nervos cranianos
  • Neuropatia periférica
  • Distúrbios sensitivos

Variantes clínicas

A DCJ pode apresentar diferentes formas clínicas, conforme a região cerebral predominantemente acometida, incluindo variantes:

  • Cognitiva
  • Cerebelar
  • Visual (variante de Heidenhain)
  • Talâmica
  • Psiquiátrica/afetiva

Além disso, subtipos moleculares da doença influenciam a apresentação clínica, idade de início e duração da evolução.

Diagnóstico de Doença de Creutzfeldt-Jakob 

O diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob baseia-se na combinação de manifestações clínicas, exames complementares e exclusão de outras causas de demência rapidamente progressiva. O diagnóstico definitivo é realizado por estudo neuropatológico, porém, na maioria dos casos, o diagnóstico provável pode ser estabelecido por métodos não invasivos.

Suspeita clínica

A DCJ deve ser suspeitada em pacientes com:

  • Demência rapidamente progressiva
  • Mioclonias
  • Ataxia
  • Distúrbios visuais
  • Sinais piramidais ou extrapiramidais
  • Mutismo acinético em fases avançadas

Principais exames diagnósticos

Ressonância magnética (RM) de encéfalo

A RM é o exame de imagem mais útil no diagnóstico da DCJ.

Principais achados:

  • Hipersinal em córtex cerebral
  • Alterações nos núcleos da base, especialmente caudado e putâmen
  • Alterações em sequências DWI e FLAIR

A sequência DWI é a mais sensível para detectar lesões precoces da doença.

Líquido cefalorraquidiano (LCR)

  • RT-QuIC: o teste RT-QuIC é atualmente um dos métodos mais específicos para o diagnóstico da DCJ, detectando proteínas priônicas anormais no LCR.
  • Proteína 14-3-3: pode estar elevada e serve como exame de apoio diagnóstico, embora não seja específica da doença.
  • Proteína Tau: níveis elevados de proteína tau no LCR também podem auxiliar no diagnóstico.

Além disso:

  • O LCR geralmente apresenta glicose normal
  • Pleocitose importante sugere outros diagnósticos

Eletroencefalograma (EEG)

O EEG pode demonstrar:

  • Complexos periódicos de ondas agudas (PSWC)

Esse padrão é sugestivo de DCJ, principalmente na forma esporádica, embora não esteja presente em todos os casos.

Critérios diagnósticos

O diagnóstico provável pode ser feito quando há:

  • Demência progressiva rápida
  • Pelo menos dois sinais clínicos típicos
  • Exames complementares compatíveis
  • Ausência de outra causa que explique o quadro

Diagnóstico definitivo

O diagnóstico definitivo depende da análise neuropatológica do tecido cerebral, geralmente obtido por autópsia ou, raramente, biópsia cerebral.

Os principais achados histopatológicos incluem:

  • Degeneração espongiforme
  • Perda neuronal
  • Gliose reativa
  • Acúmulo de proteínas priônicas anormais (PrPSc)

A biópsia cerebral não é realizada rotineiramente, sendo indicada apenas quando há necessidade de excluir doenças potencialmente tratáveis.

(Padrões corticais) Imagens de DWI e FLAIR de 3 pacientes diferentes com DCJ esporádica mostram padrões corticais típicos. Observe que a hiperintensidade cortical é mais evidente na DWI e que mais de uma distribuição vascular de artéria cerebral principal está envolvida, tornando a isquemia menos provável. (Padrões subcorticais) Imagens de DWI e FLAIR de dois pacientes diferentes com DCJ esporádica mostram padrões estriatais típicos. Observe que a hiperintensidade cortical é mais evidente na DWI e que o envolvimento estriatal pode ser unilateral ou bilateral. Fonte: UpToDate

Tratamento da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)

Atualmente, não existe tratamento curativo ou eficaz para a doença de Creutzfeldt-Jakob. A doença é progressiva e fatal, com evolução geralmente rápida e sobrevida média de aproximadamente seis meses após o início dos sintomas.

Tratamento de suporte

O manejo da DCJ é essencialmente sintomático e paliativo, com foco na melhora da qualidade de vida do paciente e no suporte aos familiares.

As principais medidas incluem:

  • Comunicação precoce e adequada com a família
  • Orientação sobre a evolução da doença
  • Encaminhamento para cuidados paliativos e hospice
  • Suporte social, psicológico e financeiro
  • Avaliação da capacidade para decisões médicas e financeiras

Tratamento sintomático

Controle das mioclonias

As mioclonias podem responder a:

  • Benzodiazepínicos, como clonazepam
  • Anticonvulsivantes, como levetiracetam e valproato

Manejo dos sintomas neuropsiquiátricos

Podem ser utilizadas medidas farmacológicas e não farmacológicas para controle de:

  • Agitação
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Psicose
  • Distúrbios do sono

Medicamentos utilizados em outras demências, como inibidores da acetilcolinesterase e antagonistas NMDA, geralmente não apresentam benefício significativo na DCJ.

Terapias investigacionais

Diversos tratamentos experimentais já foram estudados, porém sem eficácia comprovada na melhora da sobrevida ou reversão da doença.

Entre os principais:

  • Flupirtina
  • Pentosano polissulfato
  • Quinacrina
  • Doxiciclina

Alguns estudos demonstraram discretos benefícios cognitivos ou possível aumento de sobrevida, mas sem impacto clínico consistente.

Pesquisas recentes investigam terapias gênicas e oligonucleotídeos antissenso, com o objetivo de reduzir a produção da proteína priônica normal (PrPC), tentando impedir a formação de proteínas patológicas. Esses tratamentos ainda estão em fase experimental.

Veja também!

Referências

Hall WA, Masood W. Creutzfeldt-Jakob Disease. [Updated 2025 Jun 23]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507860/

Brian S Appleby, MDMark L Cohen, MD. Creutzfeldt-Jakob Disease. UpToDate, 2024. Disponível em: UpToDate

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